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Transporte sob demanda: verde ou vilão?

Por Alessandra Monnerat*

Depois de vencerem a famigerada disputa contra os táxis, os aplicativos de transporte individual no Rio de Janeiro só têm que brigar entre si. Além do mais famoso Uber, Cabify, 99 e Easy também disputam usuários. São cada vez mais motivos para os cariocas deixarem os carros em casa: uma pesquisa divulgada na segunda quinzena de março aponta que, dos usuários do app 99 na cidade, 53% têm automóvel, mas apenas 25,4% o tiram todo dia da garagem.

A mudança de hábito é positiva, mas como ela impacta nas emissões de gases de efeito estufa de uma cidade? A lógica parece ser a de que, como os aplicativos desestimulam o uso de automóveis pessoais, menos são os carros nas ruas e, em consequência, há uma influência positiva nas mudanças climáticas, certo? Ainda não há resposta definitiva para essa pergunta.

O fato é que, apesar de empresas como a Uber se venderem como eco-friendly, não há evidências que suportem essa tese – uma das universidades que estudam o tema é a UC Berkeley, na Califórnia. Embora haja prova de que o uso de aplicativos diminuiu o trânsito em cidades como Washington, em países como o Paquistão a chegada da tecnologia só avolumou a disponibilidade de carros nas ruas ao lado de táxis, segundo o site Climate Tracker.

Assim como a conveniência do aplicativo desestimula o uso do carro pessoal, ela também pode atrapalhar em certas camadas do público o uso do transporte público, de menor impacto no meio ambiente. Já em 2014, uma pesquisa da Berkeley em São Francisco revelava que 8% dos 380 passageiros entrevistados faziam viagens de automóvel que, sem o conforto de tê-las a um toque no smartphone, não fariam.

No estudo da 99 no Rio de Janeiro, que ouviu 8.053 usuários, os números demonstram que o impacto ambiental nem sempre está na mente de quem opta pelos aplicativos: 48,8% citaram o preço como fator fundamental para escolha do app; 45,4% lembraram da rapidez e 31,9%, a segurança.

Outro fator de importância é que a regulação sobre os apps ainda não é homogênea. Na mesma São Francisco citada anteriormente, por exemplo, a frota da Uber não é submetida a exigências de eficiência de combustível, o que pode causar aumento nas emissões de CO². No Brasil, a modalidade UberX aceita veículos de até 9 anos de idade – sem especificação de eficiência energética.

Mas é claro que os apps não são vilões absolutos. Uma alternativa interessante ao impacto ambiental do uso dos carros dos aplicativos está no compartilhamento de corridas, expresso em modalidades como o UberPool. Um novo estudo do Instituto de Tecnologia de Massachussetts (MIT) sugere que as viagens compartilhadas são possíveis na maioria das cidades, mesmo com componentes urbanos distintos. Com maior ocupação dos automóveis, menores seriam os congestionamentos e a poluição do ar.

Além disso, é importante notar que a chegada do Uber e de seus companheiros estimulou a discussão sobre o próprio transporte. A população nem sempre esteva habituada a pensar sobre esse tema e, no auge da guerra midiática entre táxis e apps, começamos a falar sobre o assunto. E nessa corrente, aumentou-se o debate sobre a cidade que queremos. E uma gradual mudança de consciência é um dos componentes de maior valor que o transporte sob demanda poderia trazer.

*Alessandra Monnerat tem 23 anos e está no 8º período de Comunicação Social com habilitação em jornalismo da PUC-Rio.
**O texto acima é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Climate Journalism.