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Rota Alternativa Universitária

por Erick Terzi Foti*

Engarrafamentos, transportes públicos saturados e cansaço. O deslocamento diário do carioca pela cidade tem sido um desafio difícil de ser resolvido. Novos meios de transporte, como o BRT e o VLT, a construção de vias, como a Transcarioca, e a modernização das linhas de trem e metrô são exemplos das mudanças que serviram a Olimpíada e se mantiveram como um legado à população. Apesar desses investimentos, o carro ainda é muito adotado como um meio de transporte diário, inclusive, por universitários. Com o objetivo de ajudar os colegas e dividir os custos do trajeto, as caronas universitárias têm se tornado bastante populares.

Ilustração por Diogo Maduell

Ilustração por Diogo Maduell

 

O estudante de Comunicação Social da PUC-Rio Leonne Gabriel Azevedo, 20 anos, disse que um dos maiores desafios que encontrou ao entrar na Universidade foi o tempo de deslocamento, que chegava e demorar mais de três horas, entre Campo Grande, onde residia, e a Gávea. Hoje, ele mora em Marechal Hermes e reduziu a demora em uma hora e meia.

“Senti uma grande diferença. Meu corpo sentiu essa diferença. Agora, tenho um pouco de tempo para mim. O transporte público se transforma no seu escritório, no seu quarto, na sua cozinha e na sua sala de estudos. As pessoas muitas vezes sentam no chão para estudar porque ou você dorme ou estuda. É uma maneira de aproveitar o tempo em uma rotina tão puxada”.

Leonne não pode pegar caronas universitárias porque não existe essa opção na região onde mora. Quase nenhum aluno da PUC reside em Marechal Hermes e, mesmo assim, esses poucos não possuem carro para compartilhar a viagem. Segundo ele, a carona seria mais cômoda e a melhor opção do ponto de vista da qualidade de vida, apesar de que representaria um custo, pois usufrui do passe livre universitário concedido pelo governo.

Na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), um grupo de amigos percebeu as dificuldades diárias de muitos estudantes para chegar à Cidade Universitária, mais conhecida como Ilha do Fundão. Após conversarem com professores, amigos e colegas de universidade, os estudantes Michel Balassiano, Manuel Meyer, Cecília Galli e o mestre em Engenharia de Transportes Gabriel de Oliveira foram estimulados pelo concurso Soluções Sustentáveis, em 2014, a criarem o aplicativo Caronaê UFRJ, que lhes rendeu a primeira colocação. Hoje, a equipe está maior e tem a participação dos estudantes Gabriel Menezes e Igor Rocha, além da arquiteta e urbanista Luisa Teixeira. Michel relata como o funcionamento do aplicativo foi idealizado e fala da conexão com a Universidade para a segurança dos usuários.

“A ideia de criar uma plataforma de caronas definitivamente não foi nossa. Já existem diversos aplicativos para caronas ou viagens de táxi amplamente conhecidos. Nosso pulo do gato foi a conexão com a Intranet UFRJ, garantindo segurança ao sistema. Lembro-me bem quando nos reunimos para esboçar o que poderia vir a ser um sistema institucional de caronas, composto por aplicativo mobile, pontos de encontro, criando áreas de convivência, e mudança de cultura com uma campanha a favor da carona”, conta Michel.

Usuária do Caronaê desde que foi lançado, a estudante de Engenharia Química da UFRJ Sammya Perrota, 21 anos, prefere as caronas para ir à universidade. Para ela, o desamparo com o transporte público e a insegurança são as principais razões que a fazem investir dinheiro no trajeto entra a Tijuca e a Ilha do Fundão.
Segundo a estudante, o aplicativo é muito recente e, por isso, há sempre uma grande vontade dos desenvolvedores em melhorar o funcionamento. Sammya costuma pegar caronas com Michel e comentou o interesse do estudante em aperfeiçoar a plataforma.

“As pessoas que criaram o aplicativo ainda dão caronas. O Michel é muito solicito quando alguém tem problemas com o funcionamento. Ele mora ao meu lado e às vezes vamos juntos para a universidade. Conversamos muito sobre o Caronaê durante o trajeto e ele sempre pergunta o que poderia ser melhorado. As pessoas que criaram o aplicativo são bem próximas dos usuários e isso facilita a solução de problemas”.

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Michel Balassiano e Sammya Perrota dividindo uma carona para a universidade

A estudante de Geografia da Universidade Federal Fluminense (UFF) Júlia Alves Cavaliere, 20 anos, mora na Tijuca e sempre dá caronas quando vai para a faculdade. A necessidade de baldeação entre barca e ônibus e a insegurança pelo horário de saída da universidade, geralmente por volta das 22h, influenciaram diretamente na decisão pelo carro como meio de transporte. Para ela, a divisão dos custos da viagem e a companhia no trajeto são os principais motivos para que compartilhe o conforto com os colegas.

“A carona proporciona um ambiente legal no carro porque fazemos amizades, fofocamos e nos divertimos. Temos liberdade para conversar sobre o que quisermos e conhecer pessoas de diferentes cursos. Além disso, a carona, que custa R$ 5, é mais barata do que o ônibus junto com a barca, mesmo que a pessoa use o bilhete único. O custo benefício vale muito a pena”.

Apesar de considerar as caronas universitárias uma alternativa mais confortável, o professor do Departamento de Engenharia Industrial Eugênio Leal pensa que o problema de deslocamento urbano do Rio de Janeiro é muito mais profundo. A maior vantagem dessa alternativa, segundo ele, é o preenchimento de todas as vagas de um carro, o que reduz o número de veículos particulares nas ruas e a emissão de gás carbônico.

Leal citou as faixas exclusivas de Los Angeles para os veículos que possuem mais de dois passageiros como um estímulo à prática de compartilhamento em outros países. Para o professor, o transporte público precisa ser bom o suficiente para que os estudantes que dão caronas queiram utilizá-lo para ir à universidade.

Ao falar das possíveis soluções para que isso aconteça, o engenheiro criticou a forma como o governo prioriza os investimentos no BRT que, apesar de ter melhorado a mobilidade urbana carioca, não representa uma solução por ser um meio de transporte de média capacidade. Dessa forma, o metrô e os trens deveriam ser priorizados, pois conseguem transportar um maior contingente de pessoas.

“A obra do metrô, apesar de ser mais cara e mais demorada, devolve o espaço para a cidade quando pronta. O BRT Transcarioca, por exemplo, custou menos, ficou pronto muito mais rápido, mas divide a cidade e traz consequências permanentes ao espaço urbano. Quando o metrô opera na superfície, ele, ainda assim, é melhor do que BRT em termos de capacidade e impacto ambiental”.

O funcionamento do bilhete único foi outro ponto criticado por Eugênio. Para ele, os interesses das empresas responsáveis pelo transporte público carioca são priorizados pelo Governo do Estado, o que acaba desfavorecendo a população. Segundo o professor, o sistema de cobranças deveria ser similar ao das cidades mais avançadas do mundo, em que há um valor único para que o usuário utilize quantos veículos quiser ao longo do dia.

*Erick Foti tem 21 anos e está no 3º período de Comunicação Social com habilitação em jornalismo da PUC-Rio.
**O texto acima é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Climate Journalism.