voltar

Porto Alegre depois do caos

por Renan Castro*

Três dias sem luz, dois dias sem água, árvores quebradas, postes derrubados e diversos transtornos. O temporal sem precedentes do dia 29 de janeiro de 2016 mostrou que a capital gaúcha não está preparada para as mudanças do clima. Mas será que de lá para cá mudou alguma coisa?

Anoitecia em Porto Alegre quando o assobio forte do vento anunciava a chegada de mais um temporal de verão. No rádio, o locutor anunciava que já chovia em alguns pontos da cidade. Por volta das 22h, uma ventania que ultrapassava os 100km/h atingiu principalmente a região central. Até mesmo na zona Leste, nas proximidades do Morro Santana, onde o impacto do extremo climático que assolou a capital gaúcha não foi tão intenso, era possível escutar o som da sinfonia de terror cantada pela união do vento com a água que despencava do céu.

Na manhã seguinte, embora estivesse sem luz, comemorei por não ter acontecido nada com a minha residência. Por sorte tinha bateria no celular e consegui sintonizar em uma estação de rádio para acompanhar as notícias da catástrofe. Logo percebi que os meus problemas eram nada se comparados aos de outros moradores. Centenas de casas destelhadas, árvores arrancadas do solo e milhares de pessoas sem energia elétrica. Em um dos shoppings de Porto Alegre, localizado próximo ao centro da capital, região mais impactada, muitos vidros foram quebrados pelo vento.

ft1renan

Se temporais vão e voltam, cada vez com mais intensidade, como a cidade e os seus moradores estão se preparando para eventos climáticos extremos semelhantes ao da noite de 29 de janeiro de 2016?

Paulo Rodrigues, 40 anos, que teve o telhado de sua casa parcialmente quebrado devido à força do vento de janeiro, contou que, apesar de ter entrado muita água dentro de casa, o único móvel que não deu para salvar foi sua televisão. Perguntei-lhe se foi feito o reparo do telhado pensando em durabilidade para evitar que algo semelhante ocorra novamente, mas ele admite que apenas substituiu as telhas quebradas. “Mesmo que eu fizesse algo mais resistente, não tem como competir com a força da natureza”, diz Paulo.

Desde 2006, Luiz Carlos Borges, 58 anos, mora no Bairro Ponta Grossa, Zona Sul de Porto Alegre. Para ele, os últimos dois anos tiveram temporais muito agressivos na região. Embora a tempestade do dia 29 de janeiro tenha “apenas” quebrado algumas árvores do seu terreno, os constantes períodos chuvosos, como o de outubro de 2015 em que o Guaíba registrou a segunda maior cheia da história, fez com que a água chegasse até o seu pátio. O seu terreno fica a apenas oito metros do lago Guaíba.

ft2renan

Como mora em zona de risco, devido à proximidade do lago que abastece Porto Alegre, Luiz Carlos Borges, depois dos últimos eventos climáticos, decidiu se prevenir para enfrentar novos temporais. “Apenas grades separavam o meu terreno da rua, agora coloquei um muro de um metro e depois a grade. Além disso, coloquei bueiros espalhados pelo meu pátio para fazer toda essa água escoar melhor”, informa o morador.

O que a prefeitura diz



Para Lindomar Constante, agente da Defesa Civil de Porto Alegre, ninguém esperava por aquele temporal acima da média do dia 29 de janeiro de 2016. Nem mesmo a meteorologia tinha previsto algo daquela magnitude. “Até hoje ninguém sabe explicar direito o que aconteceu. Para mim foi como um furacão f1. Afinal, ventos com mais de 120 km/h caracterizam um f1”, diz Lindomar. O fenômeno climático extremo também foi classificado por meteorologistas como downburst ou micro explosão.

maparenan

A Defesa Civil municipal atualiza-se sobre o clima a partir de dados disponibilizados pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET). Planos que já existem deverão ser potencializados para de fato existir prevenção. Esta, inclusive, tem sido a principal pauta na Comissão Permanente de Atuação em Emergências (Copae), comitê da Prefeitura de Porto Alegre integrado por profissionais de diversas secretarias. Um projeto de lei está sendo elaborado visando uma melhor preparação em caso de catástrofes.

Em 2013, a equipe de Serviço Geológico do Brasil da Companhia de Pesquisas de Recursos Minerais (CPRM) entregou um estudo à Prefeitura de Porto Alegre mostrando as principais áreas de risco em caso de desastres naturais e, com isso, auxiliar na construção de ações preventivas. Neste levantamento realizado há três anos, existiam na capital gaúcha 118 áreas de risco vulneráveis a deslizamentos e enchentes. “Agora podem ter até aumentado”, diz o agente da Defesa Civil Lindomar Constante.

Na avaliação do Chefe do Departamento de Resiliência de Porto Alegre, Patrick Fontes, as ações preventivas que já ocorrem na cidade estão sendo bem-sucedidas. No entanto, as prevenções não foram tão bem assim no temporal de janeiro de 2016, e nas fortes chuvas de outubro de 2015 que causaram alagamentos em mais de trinta pontos na capital, além de diversos transtornos, como a paralisação no Trensurb devido a falha em uma das casas de bombas do metrô de superfície que atende a Região Metropolitana.


O que está acontecendo com o clima?

A mudança do clima do planeta está aumentando a incidência de fenômenos climáticos extremos, como a enchente de outubro de 2015 e a tempestade de janeiro de 2016 que assolaram Porto Alegre. “O clima quente que desce da Amazônia e a massa de ar gelado que vem do sul transformam Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul no segundo maior principal corredor de risco de tornados no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos”, informa Lindomar Constante, da Defesa Civil municipal.

ft3renan

Para Luiz Carlos da Silva Filho, 50 anos, diretor da Escola de Engenharia e do Centro de Estudo e Pesquisa em Desastres na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), essas mudanças se devem ao aquecimento que está vindo das massas do Atlântico causando muito mais evaporação e agitação na atmosfera, além do incremento da ocupação humana que tem potencializado esses efeitos. “No momento em que a gente tem mais eventos extremos agindo sobre uma ocupação que é cada vez mais ampla, nós começamos a ter mais potencial para ter desastres e efeitos negativos dessa interação”, explica.

Gestão para prevenção



Na avaliação de Luiz Carlos Silva Filho, é preciso ter informação qualificada e pressionar diversos pontos que passam pelo cidadão, pela academia, pela municipalidade e pelos governos estadual e federal para que todo o sistema avance. Contudo, é preciso sim cobrar das prefeituras para que elas tenham uma postura ativa em relação a isso, pois ela acaba sendo o nível de gestão mais próximo do cidadão.

No entanto, o processo de preparação da cidade – indivíduos e estrutura – contra eventos extremos não deve limitar-se apenas ao poder público. É necessário que a prevenção se torne cultura e seja disseminada em escolas, universidades e pela mídia.

Ainda há muito por fazer. Na UFRGS, por exemplo, o diretor da Escola de Engenharia percebe que a resiliência está apenas dentro de certos grupos de pesquisas e ainda não se irradiou para o ensino de graduação como um todo. “A própria academia tem que entender que o ritmo de mudanças do século XXI é muito rápido. Se a gente não percorrer pelo ensino, a gente acaba perdendo a oportunidade de rapidamente formar novas gerações que estejam mais preparadas para as demandas que a sociedade está precisando neste momento”, defende Luiz Carlos Silva Filho.

ft4renan

Devido à estrutura dos currículos, avalia ele, torna-se mais difícil promover uma mudança e acaba dependendo muitas vezes do caráter pessoal do docente. Embora seja um assunto já debatido em pós-graduação, Silva Filho acredita que este será incrementado com o tempo nas graduações. Mas deve, também, ser debatido desde o ensino fundamental para que os indivíduos saiam das escolas com o conhecimento de prevenção.


Porto Alegre está preparada para a mudança do clima?

Luiz Carlos da Silva Filho diz que a capital gaúcha está caminhando para isso, embora ainda tenha diversas fragilidades. “A gente não tem um processo continuado e nem bem estruturado de adaptação. A gente tem surtos em que se faz algumas ações e, às vezes, por falta de continuidade – seja financeira, seja das pessoas – a gente acaba tendo passos que vão para trás ao invés de andar para frente”, lamenta o responsável pelo Centro de Estudo e Pesquisa em Desastres.

No final da entrevista, Luiz Carlos da Silva Filho confessou-me que adora ser entrevistado por jornalistas, pois não adianta nada os pesquisadores obterem informações se a mídia não agendar esse assunto para que este seja debatido pela população. As empresas de comunicação que atuam em Porto Alegre também precisam estar preparadas para a mudança do clima.

*Renan Castro tem 25 anos e é estudante de jornalismo na UniRitter
**O texto acima é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Climate Journalism.