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“O paraíso das magrelas”: bairro da zona leste de São Paulo é destaque no uso das bicicletas

por Lucas da Silva Ferreira Veloso*

Desde que nasceu, Ezequiel Manuel de Souza, 18, percebeu que a bicicleta é veículo essencial onde mora. “Às vezes eu até acho que nasci em cima de bike, mas ninguém quer me contar”, brinca o estudante que mora no distrito do Jd. Helena, zona leste de São Paulo.

As principais atividades diárias de Manuel são feitas utilizando uma bicicleta que ganhou de presente de um tio há cinco anos, mas desde criança tinha o hábito de brincar de pedalar com os amigos e colegas da escola. Nos fins de semana, ele se reunia com os primos para apostar corridas pelas ruas do bairro

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A visão de satélite mostra que o bairro está na várzea do Rio Tietê, um dos principais da cidade de São Paulo. Foto: Google Maps

 

“Aqui tudo se resolve assim: a pé ou de bicicleta, mas sobretudo de bicicleta, pois conseguimos chegar mais rápido onde queremos”, relata o jovem.

De acordo com o levantamento Origem de Destino, do Metrô Paulista, divulgado em 2014, é a zona leste que mais anda de bicicleta. Entre os locais apontados com maior ocorrência de viagens com bicicletas, estão o Itaim Paulista, São Miguel, Vila Curuçá, Vila Jacuí e Jardim Helena. Nestes lugares, há uma média de 18 mil viagens diárias por motivos de trabalho. Mas o local conta com poucos quilômetros cicloviários.

Por outro lado, moradores dos distritos da Bela Vista, Brás, Cambuci, Bom Retiro, Consolação, Liberdade, Santa Cecília, Pari, República e Sé, onde a oferta de ciclovias é maior, fazem 11.960 viagens diárias de bicicleta para trabalhar.

“O bairro é plano, as ruas são largas e tudo contribui. Temos tudo para ser Copenhague”, afirma a estudante Fernanda Ribeiro, 22, que compara o local em que mora à capital da Dinamarca, referência internacional quando o assunto é mobilidade urbana e bicicletas.

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“Aqui os carros já aprenderam que andamos no mesmo lugar que eles e precisa ter respeito”, afirma o aposentado Mário Simão, 75. Foto: Lucas Veloso

 

Para Oracir de Melo Tramanda, 56, membro do Bike Zona Leste, ainda existe uma necessidade de que o poder público perceba a potencialidade das periferias. “O uso desse meio de transporte favorece a todos. É um meio de transporte barato e que atende bem a todos os públicos. Os bairros mais afastados do centro descobriram há décadas o bem das magrelas, mas os governantes só enxergam o centro como prioridade, daí o motivo pelo qual onde mais se usa bike é onde menos se tem ciclovias, por exemplo”, ressalta o cicloativista.

Os bairros da zona leste somaram 17,8 quilômetros de vias exclusivas para ciclistas, sendo a região que menos recebeu malha cicloviária, mesmo tendo os bairros mais populosos e que mais usam bicicletas como meios de transportes opcionais.

Segundo dados do site “Fiquem Sabendo”, de janeiro de 2013 até junho de 2016, a Prefeitura inaugurou mais de 319 km de ciclovias, a maior parte delas foram no centro e adjacências.
Procurada, a Prefeitura de São Paulo não respondeu sobre a questão de demandas e ciclovias nos bairros da periferia da capital

Incentivos

Com o objetivo de apoiar os ciclistas, a CPTM – Companhia Paulista de Trens Metropolitanos – criou os bicicletários públicos para apoiar as pessoas que usam as bicicletas para trabalhar. Hoje, existem cerca de 20 mil passageiros cadastrados nos 29 bicicletários existentes ao lado das estações. Ao todo, são 7.158 vagas disponíveis de forma gratuita.

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Tendo capacidade maior que a maioria, o bicicletário na estação da CPTM é bastante procurado por moradores. Foto:Lucas Veloso

“Eu uso a magrela para estudar, trabalhar e me divertir e acho que os espaços tinham que aderir mais a essa realidade. Fora do meu bairro, tem lugares que vou e tenho que deixar a bicicleta presa no poste de luz, pois não tem como entrar no local com ela ou não tem espaço adequado para colocar”, relembra Fernanda Ribeiro, que usa diariamente o bicicletário da estação Jd. Helena – Vila Mara.

Por conta da grande quantidade de bikes, a linha 12 Safira da CPTM, que liga o Brás até Calmon Viana, é uma das linhas que mais contam com vagas em seus bicicletários. A estação Jardim Helena – Vila Mara possui espaço para guardar 256 veículos.

Política de ciclovias

Em 2013, ao assumir a Prefeitura de São Paulo, o então prefeito Fernando Haddad (PT) assumiu o compromisso de implantar 400 km de vias até o fim de 2015 – o que foi prorrogado por mais um ano. Com o fim do mandato, o político alcançou a promessa feita em campanha, deixando um marco histórico na cidade.

 

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Segundo moradores, o período da manhã é o pico do fluxo de bicicletas. Foto: Lucas Veloso

A partir de 2017, a capital paulista conta com novo prefeito na administração pública. João Dória (PSDB) já deu entrevistas à imprensa criticando a quantidade de ciclovias construídas no governo Haddad, afirmando que não pretende prosseguir com a política cicloviária e prometendo desativar as ciclovias com pouco uso.

Preocupados com os novos rumos da política de mobilidade da cidade, alguns membros do “Vá de Bike” – organização criada para auxiliar novos ciclistas e usuários urbanos de bicicletas, por meio de conteúdo online, palestras e demais atividades de incentivo e formação – se encontraram com Dória para discutir o futuro.

Dentre os tópicos conversados, o novo prefeito ressaltou a intenção de rever os locais “inúteis” para manter as ciclovias e expôs a ideia de entregar a expansão cicloviária nas mãos da iniciativa privada. Sobre a possibilidade das áreas centrais receberem mais investimentos do que as periferias, Dória sugeriu mesclar as áreas atendidas por estas empresas.

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Geralmente, as longas distâncias dentro do bairro são realizadas preferencialmente sobre duas rodas. Foto: Lucas Veloso
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As ruas largam permitem que os veículos transitem com facilidade e velocidade pelas vias do distrito. Foto: Lucas Veloso

“Como em toda privatização, concessões ou PPPs [parcerias público-privadas], você tem que fazer um mix entre áreas nobres e áreas menos nobres, porque senão todo o investimento irá para áreas mais nobres em detrimento das menos nobres. E a gente fazendo isso com equilíbrio, implica que você pode ter duas áreas nobres mas você fica com duas áreas periféricas. É dentro desse processo que nós vamos construir esse programa”, pontuou.

Manuel acredita que um dia o bairro possa ser reconhecido como exemplo de mobilidade e que São Paulo siga o exemplo. “Comprar pão, buscar o filho na escola e estudar usando a bicicleta não é luxo, é necessidade no mundo de hoje. O Jardim Helena aprendeu e hoje está dando exemplo de como se faz”, finaliza.

*Lucas tem 22 anos e, ao enviar a matéria, estava finalizando o curso de jornalismo na Universidade Nove de Julho
**O texto acima é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Climate Journalism.