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‘O desmatamento afeta diretamente a vida dos povos indígenas’

Por Alessandra Petraglia e Heloisa Aun

“A causa do desmatamento das terras indígenas é a invasão e a extração ilegal das áreas. Isso tem trazido muitos conflitos e assassinatos. Mas todas essas mortes seguem sem investigações e impunes”, afirma ao Climate Journalism a coordenadora executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), Sonia Bone Guajajara, durante uma mesa sobre os compromissos climáticos do Brasil na Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP 23), em Bonn, na Alemanha.

O painel deste sábado, dia 11, intitulado “Da liderança ao atraso? Como o contexto doméstico do Brasil compromete seus compromissos climáticos”, também teve a participação de Ciniro Costa Jr., do Imaflora, Marcio Astrini, do Greenpeace, e Carlos Rittl, do Observatório do Clima.

De acordo com a líder indígena, o desmatamento afeta diretamente a vida dos povos indígenas por causa da insegurança que gera dentro da terra e também devido a essa violência. “Se não há proteção dessas terras, é preciso dar as condições necessárias para que os próprios indígenas possam fazer o monitoramento das áreas desmatadas”, diz Guajajara.

Além da coordenadora da Apib, outros indígenas estão unidos na conferência do clima para discutir como será a construção da plataforma “Caucus Indígena”, que foi definida no Acordo de Paris, em 2015, e trata do conhecimento tradicional desses povos aliado ao conhecimento científico. “Nós queremos que tenha um grupo de especialistas indígenas para acompanhar as discussões porque não adianta só os cientistas estudarem e trazerem os dados”, completa.

Emissões de carbono

Na mesma mesa, Ciniro Costa Junior, do Imaflora, falou sobre a posição do Brasil entre os dez países com maior índice de emissão de carbono, um dos gases responsáveis pelo aquecimento global. Atualmente, a nação brasileira ocupa a sétima posição, sendo o desmatamento e a produção industrial os maiores influenciadores para essa realidade.

De acordo dados divulgados pelo Observatório do Clima, no ano passado o país atingiu o seu maior pico de carbono desde 2008. O enfraquecimento das políticas climáticas por parte da conservadora bancada ruralista tem um sido um dos influenciadores dessa situação, que tem como consequência o retrocesso das regulamentações ambientais e a redução dos direitos dos povos indígenas.

O especialista apontou a necessidade de uma mudança de cultura para que ações a favor do clima sejam realmente efetivas. “A gente tem que ter em mente que não é só parando o desmatamento que vai deixar o Brasil numa posição confortável em relação ao clima”, comenta. Apesar de o desflorestamento ser um dos grandes responsáveis pelos altos níveis de emissão, o modelo de vida atual também não é sustentável e precisa ser repensado.

  • A cobertura da COP 23 é uma parceria entre o Climate Journalism e o Instituto Clima e Sociedade (iCS) para incentivar a produção de jovens jornalistas sobre temas relacionados às mudanças climáticas e a mobilidade urbana.