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Mudanças climáticas ameaçam saúde de milhões de pessoas no mundo

Por Alessandra Petraglia

A saúde da população global está ameaçada pelas mudanças do clima, o que indica que a conta a pagar pelo modelo de vida atual pode ser mais alta do que imaginamos. Só em 2015, ocorreram mais de 803 mil mortes prematuras e evitáveis nos países asiáticos, todas atribuídas à poluição do ar, resultado do uso de combustíveis fósseis. Além disso, com as variabilidades do clima houve um aumento na capacidade de transmissão da dengue, com 50 a 100 milhões de novos casos da doença por ano. A expectativa é que isso agrave e acelere a propagação do vírus no mundo.

Os dados são do estudo mais recente publicado pela revista médica “The Lancet”. A pesquisa aponta uma série de fatores que direta ou indiretamente estão colocando em risco a qualidade de vida e o bem-estar da população, principalmente dos grupos mais vulneráveis. A poluição, os extremos climáticos, a propagação de doenças infecciosas, respiratórias e mentais, a crise alimentar e a redução da capacidade de trabalho são algumas das ameaças abordadas.

Os grupos mais impactados pelos efeitos do clima na saúde são aqueles que contam com o menor desenvolvimento socioeconômico.(Crédito: Pixabay)
Os grupos mais impactados pelos efeitos do clima na saúde são aqueles que contam com o menor desenvolvimento socioeconômico.(Crédito: Pixabay)

Com o aumento da temperatura do planeta nos últimos anos, nas áreas rurais a produtividade tem caído gradativamente. Isso porque quando o calor e a umidade atingem picos demasiadamente elevados, o trabalho físico se torna impossível e a consequência é a perda da mão de obra. Em 2016, estima-se que 920 mil pessoas abandonaram suas funções no campo, 418 mil só na Índia. A situação é preocupante, pois ameaça os meios de subsistência de uma ampla parte da população, principalmente os pequenos agricultores que ficam sem recursos para o sustento familiar.

No Brasil, a preocupação com a segurança alimentar do país também está sendo acompanhada por institutos de pesquisa, que já apontam grandes impactos no cultivo de alimentos comuns à mesa dos brasileiros. A Rede Clima, do Ministério da Ciência e Tecnologia, destaca que o feijão, a soja, o trigo e o milho sofrerão drásticas reduções em suas safras. Já um estudo da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) revela a possibilidade de a mandioca desaparecer no semiárido, assim como o café no Sudeste.

Já nas grandes cidades a poluição do ar, apesar de invisível, tem feito crescer os índices de doenças respiratórias e cardiovasculares. Ainda de acordo com o estudo da “The Lancet”, grande parte das cidades globais está violando as diretrizes de poluição atmosférica da Organização Mundial da Saúde (OMS). Uma amostra recente feita pela instituição com diversas cidades no mundo revela que 87% delas superam o limite anual de material particulado (MP10) no ar. Os locais menos desenvolvidos são os mais afetados pela baixa qualidade atmosférica.

E o que isso significa? Os materiais particulados correspondem a um conjunto de substâncias de tamanho microscópico que podem ser nocivas à saúde quando inaladas em grandes quantidades. Eles são emitidos, principalmente, pelos meios de transporte, através da queima de combustível.
No Brasil, as concentrações médias anuais de materiais particulados no ar são de 15ug/m3 (micrograma por metro cúbico de ar), enquanto a OMS recomenda que não exceda 10ug/m3. Na cidade de Santa Gertrudes, em São Paulo, a máxima registrada foi de 44ug/m3, ou seja, mais de três vezes o recomendado.

Apesar do cenário preocupante e desanimador para a saúde pública, os médicos afirmam que é possível transformar a crise em oportunidades. Mas para tal é preciso tratar a causa e os sintomas das mudanças climáticas, ou seja, adotar práticas mais sustentáveis. O uso de energias limpas e a renovação do transporte por veículos elétricos são algumas dessas atitudes que trariam ganhos substanciais para a saúde, colocando o mundo em direção a um caminho mais saudável e resiliente.

  • A cobertura da COP 23 é uma parceria entre o Climate Journalism e o Instituto Clima e Sociedade (iCS) para incentivar a produção de jovens jornalistas sobre temas relacionados às mudanças climáticas e a mobilidade urbana.