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“Gasto seis horas no transporte público, todo dia”: o desafio da mobilidade na periferia de SP

Por Lucas da Silva Ferreira Veloso*

São seis horas gastas todos os dias para ir e voltar ao trabalho. O estudante Gustavo Menezes, 19, define sua rotina como “puxada”. Vinte e dois quilômetros separam sua casa, em Pirituba, bairro periférico na zona norte de São Paulo, até o bairro nobre de Moema, na região sul.

O percurso exige que Menezes saia de casa três horas antes do horário de entrada na empresa. Semanalmente, um total de trinta horas “perdidas”, ou seja, mais de um dia no vai-vem dentro do transporte público.

“Acordo por volta das 4h30. Pego dois ônibus: um que me deixa na metade do caminho e o outro que me leva até perto do emprego. Em seguida, caminho em torno de 15 minutos até o serviço”, afirma o jovem.

Com aproximadamente 12 milhões de habitantes, a cidade de São Paulo é a mais populosa do país. A maior parte desta população reside em áreas mais afastadas do centro e são as mais impactadas quando o assunto é lazer, emprego e cultura.

“As pessoas das periferias demoram mais para chegar aos centros de educação, cultura, lazer e trabalho. Isso diminui drasticamente suas oportunidades de trabalho e, em consequência, a ascensão social. Sem contar com o desperdício de talentos que lá existem”, afirma José Carlos Armelin, 49, engenheiro eletricista e professor na empresa Pedal Sustentável e Banda CO2 Zero.

 

Periferia-AgenciaMural1

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Quem vive nas bordas da cidade sente na pele a série de desvantagens sobre a mobilidade urbana. Para o estudante Rafael Bertoldo, 21, morador da Cidade Tiradentes, extremo leste da capital, um dos grandes problemas é a dificuldade em acessar os equipamentos públicos, geralmente situados no centro expandido. “Toda vez que saio de casa para assistir uma peça ou ver um filme, eu acabo me cansando, porque é longe. Vou cedo e acabo voltando muito tarde”, revela.

Alternativas

O Plano Diretor de São Paulo, aprovado em 2014 pelo prefeito Fernando Haddad, busca nivelar as oportunidades entre as pessoas que habitam as diversas partes da cidade. Algumas das metas versam sobre a necessidade de haver um melhor planejamento tanto na distribuição espacial da cidade quanto na economia. O desafio é equilibrar as desigualdades existentes no ambiente urbano e suas consequências maléficas ao meio ambiente com a qualidade de vida dos paulistanos e a mobilidade urbana.

Levadas em prática, as propostas do Plano Diretor seriam fundamentais para trazer condições de vida aos moradores da periferia. “Quero me divertir sem ter que passar por um caos”, encerra Bertoldo.

 

Trânsito-no-centro-de-SP-AgênciaMural1.jpg

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Alguns projetos foram criados com base nesta lei que reordena a cidade e a questão da mobilidade. O Guia de Empregos das Periferias – GEP – é uma plataforma digital gratuita que mapeia e difunde informações sobre a oferta e a busca de empregos nas regiões periféricas de São Paulo. “O objetivo é colaborar na melhoria da qualidade de vida das pessoas, fomentando o desenvolvimento da economia colaborativa e local, e contribuindo também para melhorar os níveis da mobilidade urbana nas regiões distantes do centro”, afirma o co-criador do projeto, Vagner de Alencar.

“Não foi minha opção trabalhar longe. Trabalho em um lugar distante porque foi onde me deram a oportunidade de trabalhar e mostrar meu potencial”, ressalta Menezes.

 

*Lucas da Silva Ferreira Veloso tem 21 anos, mora em São Paulo e estuda na Universidade Nove de Julho.

**O texto acima é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Climate Journalism