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Ciclovia e alternativas para a mobilidade urbana

por Paulo Octavio Pacheco*

As principais capitais do Brasil sofrem com a mobilidade urbana. São Paulo, a maior cidade do hemisfério sul, tem uma frota de 8,1 milhões de automóveis, um número que não para de subir. Com tantos veículos nas ruas, a poluição do ar aumenta e a qualidade de locomoção piora. Esses fatores prejudicam o meio ambiente e a saúde das pessoas.

Essa contaminação já causou 62 mil mortes no país, de acordo com levantamento do Banco Mundial. Isso sem contar os imensos danos à saúde – a exposição às impurezas por muito tempo pode causar problemas cardiológicos, pulmonares e até câncer. Essa questão também atinge a economia: anualmente são gastos 4,9 bilhões de dólares para combater o problema.

O maior emissor de poluentes é a frota de carros.  Numa medida para atenuar a emissão, o Ministério do Meio Ambiente criou o Proconve (Programa de Controle da Poluição do Ar), que propõe limites de emissão de poluentes de todos os modelos de veículos automotores vendidos no país.

Na contramão dessa iniciativa, a Câmara dos Deputados discute um projeto que libera a fabricação e comercialização de carros a diesel. O projeto de decreto legislativo foi rejeitado pela Comissão do Meio Ambiente, mas após manobra, segue em pauta e aguarda designação do relator, o deputado Evandro Roman (PSD-PR), que é a favor.

Uma outra medida para melhorar o deslocamento de pessoas e reduzir a poluição é a criação de ciclovias. Em 2014, a prefeitura de São Paulo passou a investir pesado na ampliação de faixas para bicicletas. Hoje a capital paulista tem a maior malha cicloviária da América Latina, com 468 km. O prefeito João Doria pretende criar mais ciclovias onde há demanda, em canteiros centrais e avenidas.

Porém, há críticas à falta de planejamento das ciclovias. Em junho de 2016, a Folha de S. Paulo mostrou a condição nas periferias, como na avenida Bento Guelfi, na Cidade Tiradentes, onde a faixa fica no meio da rua e os ciclistas passam no meio dos carros, correndo risco de acidentes, além de outras reclamações, como faixas em frente a locais de comércio, por exemplo.

O diretor geral e fundador da ONG Transporte Ativo, José Lobo, afirma que é preciso pensar na qualidade. “Muitos prefeitos se preocupam com a quilometragem, mas a preocupação deve ser muito mais em como a bicicleta vai funcionar na cidade, divulgar isso e fazer infraestrutura de qualidade. Mesmo os mais motivados ainda têm ranço da política de transporte do século passado, voltada para o ferroviário”.

Lobo também ressalta a importância do investimento em transporte alternativo: “Cidades que investiram em facilidades para pedestres e ciclistas são beneficiadas com maior qualidade de vida, saúde da população, redução da poluição e oferecem mais alternativas de transporte. O sucesso da mobilidade urbana depende da combinação de diversas opções de transporte e do uso de menos energia.”

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Outras cidades do estado de São Paulo também possuem planos de ciclovia. Osasco (foto), tem quinze quilômetros distribuídos nas principais avenidas do município; no domingo a ciclofaixa lazer funciona das 7h às 16h.

Em meio a essas mudanças, pesquisa feita pela Rede Nossa São Paulo afirma que a população está favorável a alternativas a automóveis. O levantamento mostra que 92% dos entrevistados é a favor de mais faixas e corredores de ônibus, 76% aprova abertura de ruas e avenidas para pedestres e 68% apoia construção e ampliação de ciclovias.

O primeiro passo foi dado. Lobo acredita que o bem-estar coletivo deve ser o foco, ao invés do individual: “Seguir planejando e construindo, apenas com foco no motorizado individual, já teve seu tempo. Hoje isso passou. É preciso que se pense na mobilidade da população ao invés de priorizar o deslocamento de um pequeno percentual privilegiado. É preciso repensar com urgência nossas opções de transporte e cidadania”.

O diretor também destaca o papel da mídia de propor um debate que visa uma melhor qualidade de vida. “A mídia pode fazer uma grande diferença, informando usuários e gestores sobre os benefícios de um e malefícios do outro para cidades saudáveis e melhoria da qualidade de vida. O papel da mídia é essencial para as mudanças que necessitamos”.

*Paulo Octávio tem 25 anos e está no 5º período de jornalismo da Fiam Faam Morumbi
**O texto acima é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Climate Journalism.