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“As cidades deveriam começar suas intervenções pelas áreas de maior vulnerabilidade social”, diz representante do ICLEI

Por Lucas Veloso

Para o  secretário-executivo do ICLEI para América do Sul, Rodrigo de Oliveira Perpetuo, existe uma necessidade de que os governos locais atendam às demandas ambientais das populações mais afastadas dos centros. O ICLEI é uma associação dos governos locais que busca promover o comprometimento e a implantação de agendas ligadas ao desenvolvimento sustentável e ao combate às mudanças climáticas nos países. Na COP 23, a organização da entidade promoveu a mesa sobre os compromissos climáticos do Brasil na Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática, onde também reuniu representantes da Argentina e Colômbia.

Com sua atuação no ICLEI, quais são os maiores desafios, sobretudo nas periferias, para discutirmos aquecimento global e suas consequências nestes lugares?

O que acontece é: quem são os primeiros cidadãos a sentir os efeitos das mudanças climáticas, que são manifestadas através de enchentes, a partir de uma escassez hídrica que compromete o abastecimento? O cidadão que geralmente  está na periferia, onde existe uma área onde a infraestrutura não é a mais adequada, onde a urbanização não chegou como deveria ter chegado. Então, nós entendemos que a prioridade número 1 são essas áreas. Os governos, as cidades deveriam apoiar começar suas intervenções pelas áreas de maior vulnerabilidade social.

Você acredita que os problemas ambientais encontrados nas periferias afetam regiões também?

Sim, por exemplo, quando as enchentes acontecem na infraestrutura, na cidade formal, o impacto em termos do dano na cidade e da perda de vidas é menor, mas quando uma enchente acontece e uma área de muita vulnerabilidade, uma área informal ou um assentamento, a perda é total, e muitas vezes, vítimas fatais, com uma perda irreparável. Existe um compromisso histórico de que os governos, principalmente da América Latina, Brasil e no caso de São Paulo deveriam fazer para que essa situação seja invertida: começar pelas áreas de maior vulnerabilidade e aí sim, ganhar a cidade formal.

Em São Paulo, quais as prioridades que deveriam ser trabalhadas pela gestão municipal?

São Paulo é uma mega cidade, então, o primeiro é ter um planejamento integrado que considere sua dimensão e escala. Uma união entre o município, sua área metropolitana, o governo do estado e o federal é uma necessidade, não um diálogo federativo que deve acontecer por luxo ou por qualquer outro motivo, mas por uma necessidade de otimizar recursos e planejamento integrado para que as intervenções sejam possíveis.

O ex prefeito de São Paulo, Fernando Haddad criou uma política de ciclovias e faixas de ônibus, ações que de certa forma, beneficiaram em grande parte as pessoas das periferias. A nova gestão já considerou rever algumas dessas políticas, acredita que a retirada de ciclovias, por exemplo, é uma atitude prejudicial à cidade? Uma política de mobilidade que entenda as demandas das pessoas é cada vez mais urgente?

As ciclovias fazem parte de um conjunto de medidas que compõem um olhar mais moderno sobre a questão da mobilidade urbana e esse olhar mais moderno, quanto mais institucionalizado for, quanto mais rastreado, não só pelos órgãos locais, mas pelas referências internacionais, mais difícil dar passos atrás ou modificar para retroceder no que são considerados avanços. Dito isso, a cidade de São Paulo discute hoje medidas importantes, como a proteção à poluição de partículas que são emitidas a partir dos motores a combustão. E acho que tão importante como a questão da diversidade da matriz de mobilidade para meios não motorizados, também a regulação com maior rigor do transporte público e privado, para que a saúde humana seja menos afetada, ou afetada da menor maneira possível.

Você afirmou que as pessoas dos subúrbios são as mais atingidas, você acredita que esses atores têm vozes na hora de debater meio ambiente e cidades?

Eu acho que você tem um déficit democrático associado a possibilidade dar voz à população marginalizada, então, fazer com que essa população possa compreender do que se trata esse debate é o primeiro caminho, instrumentos de educação e de engajamento das pessoas da sociedade civil para que possa se conscientizar do seu lugar nessa discussão, e em segundo lugar, para que possa reivindicar os seus direitos e participar da discussão com sua contribuição cidadã.

  • A cobertura da COP 23 é uma parceria entre o Climate Journalism e o Instituto Clima e Sociedade (iCS) para incentivar a produção de jovens jornalistas sobre temas relacionados às mudanças climáticas e a mobilidade urbana.