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A figura da bicicleta na periferia

por Gabriela Paiva*

Surgidas a partir de um projeto de transformar a cidade do Rio de Janeiro em uma nova Paris, as favelas cariocas vêm sofrendo transformações significativas na sua estrutura de mobilidade. A implantação de projetos sociais como o PAC e a vinda de grandes eventos internacionais como a Eco-92 e as Olimpíadas 2016 são os protagonistas nesse cenário de mudanças.

Na Rocinha, situada na zona sul do Rio de Janeiro, as obras de implementação do teleférico se encontram congeladas em função de problemas financeiros do estado. Para suprir a necessidade de locomoção dos moradores, as motocicletas são atualmente o principal meio de transporte na comunidade.

A figura da bicicleta, no entanto, apresenta dificuldades de se inserir na mobilidade do local.

“Costumava usar muito a bicicleta lá em Montes Claros (MG), mas aqui na Rocinha não tenho coragem não”, desabafa Riva Helena de Malveira, 46, empregada doméstica e moradora da Rocinha há 7 anos.

De acordo com dados da prefeitura municipal, o Rio de Janeiro apresenta a maior rede cicloviária da América Latina, contabilizando 432.500 quilômetros. O mapa cicloviário do Rio, contudo, mostra que essa ampla extensão não é sinônimo de infraestrutura ou acessibilidade para todas as camadas da população. No município do Rio de Janeiro, as ciclovias se concentram em áreas nobres.

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Foto: http://www.ta.org.br

Desafios adicionais
Para José Lobo, diretor da ONG Transporte Ativo, a dificuldade do protagonismo das bicicletas nas periferias vai além da questão da escassez de infraestrutura cicloviária:

“Os ciclistas periféricos sofrem os mesmos problemas que os ciclistas do centro somados aos obstáculos comuns às comunidades, como dificuldades nas vias internas mal projetadas ou inexistentes e muitas vezes com morros íngremes”, conclui.

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Vielas e escadas constituem fortes motivos para o não uso da bicicleta nas favelas. Foto:Gabriela Paiva

 

Na Rocinha, os esforços para atender a pequena parcela dos moradores que usam bicicletas não tiveram resultados efetivos. A instalação de um bicicletário em 2012 na parte baixa da favela não resolveu problemas cruciais de mobilidade, como a presença de sinalização e de vias largas com faixas exclusivas para ciclistas.

“Essa bicicleta tá aqui há um bom tempo. Ninguém usa”, aponta Riva para uma bicicleta enferrujada no prédio onde mora.

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Os projetos do PAC 1 e 2 deram espaço a questão da mobilidade. Além do teleférico, o alargamento e melhorias de ruas e vias na comunidade como a da Rua Um, Rua Quatro  e Estrada da Gávea (principal via da Rocinha) foram previstos. Entretanto, nove anos após o início do PAC 1, apenas o alargamento da Rua Três saiu definitivamente do papel.

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Por conta de problemas de habitação e mobilidade bicicletário na Rocinha sofre ação do abandono. Foto: Gabriela Paiva

“Acho que o principal problema que desanima muita gente a comprar uma bicicleta aqui, assim como eu, são as vielas, os morros, as escadas e a falta de segurança no trânsito. Quem chega cansado do trabalho prefere pagar um mototáxi para chegar em casa do que se arriscar no trânsito e ter que enfrentar no caminho morros e escadas, mesmo o mototáxi saindo mais caro. É complicado, pois o problema está ligado ao nascimento e história da favela. Na verdade o problema maior é a forma que a favela está estruturada e isso só seria resolvido com uma grande força do governo, que infelizmente não podemos contar. Sinto saudade da bicicleta no meu cotidiano sim, mas prefiro não correr o risco. Andar de bicicleta em certas localidades da Rocinha é  um esporte radical”, finaliza Riva.

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Riva Helena. Foto:Gabriela Paiva

*Gabriela tem 19 anos e está no 2º período de Comunicação Social na PUC-Rio
**O texto acima é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Climate Journalism.